O reconhecimento custa além

Estava assistindo um vídeo (este vídeo) de uma YouTuber chamada mayuko e em algum momento surgiu o comentário “ninguém vai ter dar estrelas por fazer seu trabalho”, como referência a quando éramos criança, e a professora classificava sua lição de casa com uma estrela no caderno, ou um coração, ou o que quer que fosse.

Aquilo era uma forma de te recompensar. De te mostrar que alguém estava satisfeito por você ter feito o que era esperado; a lição de casa.

Nenhum problema até aqui. Claro que podemos citar que há quem defenda e há quem condene o sistema de recompensa/punição de crianças, mas, não é o mérito do texto. Queremos falar sobre trazer a idéia de que, fazer o que tenho que fazer e ser reconhecido, não vai funcionar no mundo adulto.

… É provável, inclusive, que te atrapalhe.

Vou tomar como exemplo um acontecimento recente: comprei um novo livro (que pretendo escrever sobre), e determinei que leria pelo menos um capítulo por dia. No primeiro dia, li um capítulo e ao mesmo tempo, iniciei um novo hábito de fazer pequenas anotações de pontos interessantes para se colocar na resenha. A leitura fluiu bem, as anotações fizeram sentido e eu me senti bem. Bem a ponto de ter aquela pequena sensação de orgulho!

Podemos associar a sensação ao notável discurso do almirante da marinha americana William H. McRaven sobre mudar o mundo começando pela própria camae não estaríamos errados. Arrumar a cama nos traz aquela pequena sensação de conquista, que inevitavelmente nos motiva a passar para o próximo desafio. O problema aqui é supervalorizar essa sensação e, de alguma forma, nos convencermos de que “foi o bastante por hoje”. Essa, no meu caso, é uma forma clássica de autossabotagem.

Como o texto não pretende navegar pelos oceanos da psicologia, vou me limitar a dizer que, de alguma maneira conseguimos encontrar meios de nos dizermos que aquilo foi o suficiente e, por consequência, caímos em algum tipo de zona de conforto. Quase como um gatilho emocional, determinadas ações passam a automaticamente esperar por determinadas reações. Se quando pequeno, ao fazer minha lição de casa, ganhava uma estrela, hoje, quando faço o que tenho que ser feito, tenho que ganhar algo.

Ter lido um capítulo, como havia determinado, sugeriu que fiz algo pré-estabelecido. Cadê minha recompensa? Não a sensação de orgulho, mas alguém pra me falar que fiz um bom trabalho e que mereço ser recompensado por isso.

Isto serve para tudo que envolve tarefas.

No trabalho, por exemplo, somos contratados para fazer algo. Esta previamente acordado e estabelecido que, em troca da nossa expertise receberemos um salário. Esperar que, para cada vez que fazemos o que tem que ser feito, sejamos recompensados com algum tipo de estrela no caderno, provavelmente irá nos sabotar.

Não há absolutamente nada de errado em algum outro tipo de reconhecimento, mais imediato, que não o salário. Não tem problema em um “bom trabalho, mandou bem!”. O problema está em esperar por isso.

Ter percebido este sistema de autossabotagem tem me ajudado a entender realmente as consequências de ter passado grande parte da minha vida dentro dele, de que forma ele me afetou e como posso, daqui pra frente, evitá-lo.

Entendi, finalmente que, o reconhecimento custa um pouco mais do que esperamos, e precisamos lidar com isso. A primeira e melhor maneira é reconhecer o próprio esforço, mas não nos darmos por satisfeitos. Sentir que o dever foi cumprido precisa se tornar um gatilho para que mais deveres sejam cumpridos. Talvez então, em algum momento, alguém vai te dar, merecidamente, uma estrela no caderno.

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Ser adulto é quebrar correntes

O título que escolhi pra este texto deveria ter um ponto de interrogação no final. Ele não é exatamente uma reflexão com uma conclusão. Está mais para uma reflexão contínua, aberta à interpretações e colaborações de terceiro (e quartos, quintos…).

Ser adulto está diretamente ligado a idade ou está diretamente ligado a responsabilidades? Ser adulto está mais para entrar em uma nova etapa da vida, independente de idade e responsabilidade ou está mais próximo de dar continuidade a etapa passada, mas com uma outra visão?

Antes de entrar de fato no tema gostaria de recomendar dois trabalhos: “Ser Adulto”: Alguns elementos para a discussão deste conceito e para a formação de professores “Adultos” por Nilce da Silva e Tornando-se Adulto: Uma abordagem antropológica sobre crianças e religião por Flávia Pires. São artigos que não necessariamente vou usar aqui, mas são artigos que li antes de escrever e que achei interessante recomendar para aqueles que querem visões diferentes sobre o assunto.

ser adulto

Minha visão, até então, era mais ligada ao conceito de sabedoria. Sempre tive responsabilidades. Comecei a trabalhar em uma loja de videogames com 16 anos e não necessariamente me considerava adulto por isso. A ideia de ser adulto sempre foi visualmente abstrata, e meu entendimento é que, deveria deixar pra lá, pois quando virasse adulto, naturalmente saberia, quase como o momento onde o Neo (Matrix) entende que ele é O Escolhido.

10 anos se passaram e nada havia acontecido. Mais responsabilidade, mais experiência de vida, mais momentos e decisões que entendemos como de adultos, mas a sensação ainda era que vivia a mesma vida de quando era mais novo. A vida, aparentemente, não havia entendido que eu era O Escolhido.

Até que chegou o grande momento: Entendi que sou adulto! 

Ele veio de uma forma absolutamente desagradável, a partir de uma notícia mais desagradável ainda. Não vem ao caso. O importante é que o momento chegou.

E aí entrei na questão filosófica de toda a discussão: eu não virei, mas compreendi que sou. Já faz algum tempo que cresci. Faz algum tempo que tenho responsabilidades e boletos pra pagar. Faz algum tempo que tomo decisões por mim. O que me faltava era uma certa maturidade emocional, e essa maturidade, que fazia questão de não vir, era a cereja que coroaria o conceito (meu conceito) de que me tornei adulto.

A minha maturidade emocional estava acorrentada em um bloco imenso de concreto que eu fazia questão de carregar comigo. Talvez, aquele bloco já estivesse pronto para me deixar ir. Provavelmente ele estava pronto há tempos. Mas eu fazia questão de segurar aquela corrente e arrastá-lo para onde quer que eu fosse.

Percebam aqui que: eu segurava o bloco.

Qualquer outra pessoa, emocionalmente preparada pra lidar com determinadas situações, teria entendido com certa antecedência e soltado o bloco. Eu o segurei com tanta força que a corrente que o segurava estourou. Doeu mais que o necessário, mas o bloco finalmente se viu livre de mim, e eu dele.

Hoje, entendo que ser adulto é ser o protagonista da própria vida.

E pra você? O que é ser adulto?

 

Discursos Imaginados

São 6h30 da manhã, estou levando minha tia até o trabalho. A cidade de Hortolândia não tem ônibus por conta da greve dos caminhoneiros. No caminho falamos sobre o trabalho, salários e naturalmente, projetamos algumas frustrações em cima do tema. Deixo-a no destino e sigo o caminho.

Agora, sozinho, contextualizo e sintetizo em pensamento tudo o que foi falado naqueles minutos e trago também outras conversas derivadas do mesmo tema. Imagino toda uma situação onde eu estou com a palavra. A empresa, naquele momento, espera de mim algo que ela não tem, ou ainda não consegue extrair.

Começo um discurso que transita entre áreas do meu domínio, como estratégias e planejamento de projetos, até áreas que sempre evitei, como vendas e comercial. Acontece que neste momento não importa. Explico com autoridade qual rumo a empresa deveria tomar, principalmente do ponto de vista estratégico, quais são os pontos que precisam de ajustes urgentes.

Funcionários, gerentes e o dono prestam atenção no que falo. Entendem e dão importância. Afinal, eles me contrataram para isso.

Em algum ponto, já no final da alocução, saio da linha de raciocínio e acabo voltando com a atenção para a realidade. Já cheguei onde precisava. Estaciono o carro e desço.

Sempre faço isto. Já me puis em situações onde preciso usar o inglês, ou arranhar o francês. Já precisei dar aulas e também precisei argumentar com alguém sobre algo que não domino plenamente.

Estes pequenos discursos imaginados fazem parte da minha rotina há algum tempo, e de certa forma me preparam para situações que normalmente não estaria preparado. Em alguns casos, assim que possível, busco entender melhor o que propus à minha imaginação e tento identificar ali algum sinal do que deveria ou poderia estar fazendo.

Hoje não tenho agendada nenhuma conversa com funcionários, gerentes e donos.

Mas se porventura precisar, já treinei um tanto.